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em LM

“Querida Paula, gostei muito do seu blog, dedicado a seu Pai. A imagem que dali emerge está muito conforme com aquela com que eu próprio fiquei dele. Era um personagem tolstoiano, de uma total inteireza e de uma certa “inocência”, no melhor e mais nobre sentido do termo: a do Aliocha, de Os Irmãos Karamazov – um dos meus personagens preferidos de toda a literatura… Aquela “inocência” nada tem que ver com ingenuidade ou “atrazo”, é mais uma espécie de pureza, que não se furta ao combate, antes o aceita de bom grado, sendo necessário (e só quando é necessário).” –  Eugénio Lisboa

The writer and essayist Eugénio Lisboa, one of my father’s  friends, wrote to me recently: Your father was a Tolstonian character – so completely wholesome and possessing an “innocence” in the best and most noble meaning of the word:  like Alyosha’s – the character in Dostoevsky’s The Brothers Karamazov – one of my favorite characters in literature. An “innocence” that has nothing to do with gullibility or “backwardness”, it is more like a kind of  ‘purity’ that does not shrink from combat on the contrary it accepts it willingly when necessary (but only when necessary).”

07 de MARÇO (II)

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A Praça 7 de Março, no início dos anos 60, vendo-se o prédio Fonte Azul à direita, onde meu pai tinha escritório, e a esplanada do Café Nicola, no centro da praça. Meu pai era “habitué” desta esplanada.

A seguir coloco alguns dos obituários publicados por alguns amigos, colegas e clientes de meu pai.

Coloco também dois artigos de jornais de Moçambique, um de 1969 e outro de 1989, sobre o caso do falecimento e confisco da urna com as cinzas de meu pai.

Infelizmente, os outros artigos publicados noutros jornais perderam-se nas andanças da vida. Aguardo oportunidade para fazer nova pesquisa e conseguir cópias desses que me faltam.

Ambos os artigos que aqui coloco contêm diversas imprecisões.

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Artigo mandado publicar pela PIDE  (Novembro? de 1969).

Note-se como neste artigo, publicado num jornal da Beira (ao tempo sob o controle de Jorge Jardim) fogem completamente à vertente política da questão.

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Quando a urna foi apreendida por ordens da PIDE, mandámos publicar esta nota a anunciar que a homenagem se realizaria em data ainda não determinada.

Com um monomotor do Aeroclube - LM

Aeroclube

Meu pai, no Aeroclube de Lourenço Marques, junto a um monomotor, e o seu brevet de piloto do período de 1962 a 1968.

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Últimas fotos Papá 1

Duas das últimas fotografias de meu pai, comigo (na Costa do Sol, em meados de 1968) e com meu irmão (no Cabo, um dia antes de ter dado entrada no hospital de Wynberg).

  Últimas fotos Papá 2

No dia em que foi internado no hospital de Wynberg (Cabo) – início de Janeiro de 1969.

Obituarios (2)

Obituário mandado publicar pela família Honwana, seus grandes amigos.

Obituarios (3)Obituário mandado publicar pelos amigos da COOP.

Obituarios (1)

    Diversos obituários mandados publicar pelos Colegas advogados, pelo Aeroclube de Lourenço Marques, pela família Jauana (amigos de longa data) e pela cliente Pendray & Sousa.

DEPOIS DA INDEPENDÊNCIA

O artigo que se segue foi publicado no jornal Domingo, de Maputo, em 02 de Abril de 1989.

Jornal domingo 1989 (1)

Jornal domingo 1989 (2)

Jornal domingo 1989 (3)

07 de MARÇO (I)

José G. de Matos Santa Rita anos 60.

Trabalhou quase toda a vida na Praça 07 de Março, em Lourenço Marques.

Faleceu no dia 07 de Março.

No dia 07 de Março de 1969, faz hoje 44 anos, faleceu meu pai, José Santa Rita, num hospital da Cidade do Cabo, África do Sul, vítima de cancro. Tinha 51 anos de idade.

Tínhamos chegado no início de Janeiro, para as férias de Verão em Hout Bay, como era habitual desde há cerca de 20 anos.Todos os anos para a mesma praia e para o mesmo hotel.

Logo no segundo dia de férias, pela manhã, meu pai pediu-me que chamasse uma ambulância ou que o levasse de carro ao consultório do Dr. Schofield. Estava transido de dores. O médico mandou-o de imediato para internamento no hospital de Wynberg para ser operado de urgência. Mas quando o abriram, verificaram que o cancro já tinha ramificações por todo o corpo. Disseram-me que não tinham podido fazer nada e que apenas lhe restavam algumas semanas de vida.

Meu pai e minha mãe estavam separados há alguns anos e eu, com 19 anos, estava ali  com o meu irmão, que era ainda adolescente, sem saber o que fazer perante tão grande e inesperada tragédia. Nunca vira meu pai doente. Apesar de, nos últimos tempos, ter começado a automedicar-se pois dizia que estava mal do coração, o que é certo é que os testes que tinha feito para renovação do brevet de piloto de avionetes nada tinham acusado, antes indicando um coração saudável. E eu pensei para comigo que as dores que ele dizia que sentia eram o resultado de ter ficado  destroçado pela separação de minha mãe.

Nos últimos anos tinham decorrido também os tão falados julgamentos políticos de Lourenço Marques, nos quais meu pai esteve profundamente envolvido como advogado de defesa de vários opositores ao regime, alguns deles simpatizantes do movimento de libertação de Moçambique, entre os quais o escriturário principal do seu escritório de advocacia e seu grande amigo Rogério Jauana. Entre os presos estava também Domingos Arouca colega que trabalhou no seu escritório desde o seu regresso a Moçambique recém formado em Direito até ser preso em 1965.  Com o envolvimento de meu pai nessas defesas, a PIDE começou a exercer sobre ele e sobre o seu escritório uma vigilância mais apertada, ao ponto de ele me ter dito, antes de começarmos aquela viagem de férias, que poderia não voltar a Moçambique e que, se tal acontecesse, já estava planeado ir viver para a Suazilândia com o meu irmão e que eu poderia continuar a viver em Durban (onde estava a estudar desde os 16 anos).

De facto, nunca mais voltou a Moçambique. Mas não pelas causas que ele previa.

Naquela noite de sexta-feira, 07 de Março, cerca das 23h00m, na primeira cama de hospital onde alguma vez tinha estado e onde, durante várias semanas, foi definhando até se tornar quase irreconhecível, deixou esta vida e a possibilidade de voltar a pisar a terra de Moçambique que tanto amava.

Sem qualquer experiência em lidar com situações tão extremas, sem o apoio de alguém mais velho que me pudesse orientar e sob o peso daquela extrema amargura, aceitei o conselho de algumas pessoas conhecidas de que o mais indicado era um funeral com cremação porque depois seria mais fácil de trasladar uma vez que o desejo de meu pai era repousar em solo moçambicano.

O serviço fúnebre, uma cerimónia muito simples uma vez que meu pai não professava qualquer religião, teve lugar dois dias depois, no crematório da Cidade do Cabo e contou com a presença de algumas pessoas com quem meu pai se relacionava em época de férias.

Logo que a urna com as suas cinzas me foi entregue, iniciei a viagem de carro para Moçambique, na companhia de uma amiga e de minha mãe que, entretanto, tinha voado para o Cabo para me apoiar na viagem de regresso.

Como eu era a única que tinha carta de condução, tive que conduzir todo o caminho, atravessando toda a África do Sul em direcção a Durban e entrando depois na Suazilândia que atravessei para chegar a Moçambique. Extenuada de cansaço, de amargura e com um imenso medo de que me revistassem o carro e me apreendessem a urna com as cinzas de meu pai. Felizmente, num incomensurável esforço para me mostrar descontraída e calma, conseguimos entrar em Moçambique sem problemas.

Porém, quando os colegas de meu pai, alguns advogados também opositores ao regime e os seus amigos do aero-clube, souberam da chegada da urna a Moçambique, reuniram-se para combinarem uma homenagem fúnebre. Os amigos do aero-clube pensaram ser uma boa ideia levarmos a urna de avionete e deitarmos as cinzas sobre o mar, ao largo da baía de Lourenço Marques. Falaram comigo sobre isso e eu aceitei pois pensei que seria algo que agradaria a meu pai uma vez que aquela tinha sido a sua cidade e pilotar avionetes tinha sido também o seu hobby preferido.

Entretanto a PIDE, que já tinha conhecimento que as cinzas de meu pai se encontravam em solo moçambicano, apesar de não saber ainda o local se encontravam, espiava tudo e todos no sentido de impedir que tivesse lugar qualquer cerimónia. Sabiam que uma cerimónia fúnebre ao Dr. Santa Rita, fosse de que tipo fosse, iria resultar num grande ajuntamento de pessoas, de todas as origens e condições e que algumas pessoas do grupo dos democratas (não me refiro aos “democratas” que surgiram no ano antes da Independência) , do qual meu pai tinha feito parte, tinham planos para transformarem o acontecimento numa manifestação de natureza política.

Por isso, quando tiveram conhecimento dos intentos dos amigos de meu pai, fizeram publicar no jornal “Diário” do dia 24/04/1969, uma notícia em que alarmavam a população para o “escândalo de se atirarem as cinzas de mortos para cima dos citadinos nas ruas e para cima das criancinhas que se banhavam nas praias da cidade”. A esse artigo seguiram-se outros semelhantes.

De imediato, o telefone em nossa casa começou a tocar quase ininterruptamente e começámos a receber telefonemas anónimos de carácter insultuoso.

A PIDE começou então a andar de casa em casa, à procura da urna. Em casa de todas as pessoas que tinham sido amigas de meu pai, quer fossem amigos da cidade de cimento quer fossem amigos da cidade de caniço. Encontraram-na finalmente em casa da colega e grande amiga de meu pai, a advogada Dra. Letícia Chaves, que se recusou a entregar a urna alegando que a PIDE não tinha mandado para tal. Mas voltaram depois, com um mandado emitido pelo Delegado de Saúde da Câmara Municipal, com base numa lei de saúde pública do século XIX, ainda em vigor mas já em desuso.

A Dra. Letícia não teve outra saída senão entregar a urna e a PIDE manteve-a apreendida, durante mais de um ano, em local desconhecido.

Amargurada e em desespero, tentei por todos os meios ao meu alcance saber do paradeiro das cinzas de meu pai, mas sem qualquer resultado. Até que um dia tive conhecimento que a minha amiga Vera Cabral costumava jogar bridge todas as semanas, no Grémio Civil, com um grupo de pessoas entre as quais o então Director da PIDE conhecido por Capitão Vaz. Fui ter com ela e falei-lhe dessa minha amargura. Ela de imediato se ofereceu para  interceder por mim junto do Director da Pide para que me fossem devolvidas as cinzas de meu pai. Eu agradeci-lhe e disse-lhe que estaria disposta a aceitar qualquer condição que me quisessem impor.

O Director da PIDE, que na primeira aproximação ao assunto se mostrou muito incomodado por lhe estar a ser feito tal pedido, ainda mais no seu tempo de lazer, ao fim de algum tempo e perante a insistência da minha amiga, concordou em libertar a urna, por “razões humanitárias” (foi a justificação) e mediante o compromisso da minha parte de que faria sair a urna de território moçambicano logo que a recebesse, sem qualquer cerimónia pública.

Eu aceitei de imediato, fui ao gabinete do Delegado de Saúde e assinei a declaração que me puseram à frente. Entregaram-me depois uma autorização e mandaram-me ir buscar a urna ao cemitério de São Francisco Xavier. Apresentei-me no cemitério com a autorização e o encarregado levou-me a um depósito cheio de prateleiras onde se encontravam alguns caixões pequenos que me pareceram ser de crianças e, lá no cimo, na última prateleira, lá estava a urna com as cinzas de meu pai. Se ao menos eu tivesse imaginado que esteve sempre ali tão perto…

Como não podia arriscar faltar ao compromisso que tinha assumido, diligenciei para que as cinzas de meu pai viessem para Portugal, o que aconteceu. Ficaram depositadas num jazigo de família, num cemitério de Lisboa e aí ficaram a aguardar momento oportuno para regressarem a Moçambique, terra onde meu pai desejava repousar e donde nunca deveria ter saído.

Em 1988, surgiu finalmente essa oportunidade. A Embaixada de Moçambique, através dos seus Serviços Consulares em Lisboa, tudo fez para que a urna voltasse a entrar em Moçambique sem problemas. E assim, em 1989, reuni-me com um pequeno grupo de amigos, que o tinham sido também de meu pai, para decidirmos como fazer a cerimónia fúnebre. Todos foram unânimes em dizer que, segundo a tradição africana, a urna devia sair da casa que ele tinha mandado construir, para que a sua alma tivesse para onde voltar. Porém, com a independência a casa tinha sido nacionalizada e eu encontrava-me naquela altura a lutar, nos Tribunais, para a reaver. Disseram-me que devia ter paciência, ter calma e esperança porque o meu falecido pai esperava enterro há 20 anos e mais valia fazer tudo condignamente e conforme a tradição.

Esperei (esperou) mais cinco anos. Vinte e cinco anos, ao todo, para ter enterro!

Devido a circunstancias não previstas e demasiado complexas para aqui descrever, a cerimonia de homenagem não teve lugar. E provavelmente nunca terá.  Devido às tais circunstancias, com a ajuda do seu amigo, agora também já falecido, Amaral Matos, foi-me cedida uma sepultura no cemiterio de Lhanguene onde, em 1994, as cinzas de meu pai foram a enterrar.

No cemitério de Lhanguene, cidade de Maputo, meu pai encontrou finalmente a paz merecida.

Jaz á sombra da copa de uma mafurreira, árvore cheia de significado e valor na cultura do sul de Moçambique. Descansa como moçambicano, no meio de tantos outros moçambicanos que sempre ajudou, respeitou e por quem  sempre lutou.

20086  noticia da COOP sobe falecimento de JSR

Meu pai era um grande entusiasta da ideia de cooperativas. Era-lhe irresistível a ideia de uma associação livre e democrática composta por voluntários que se juntassem para colectivamente serem proprietários, gerirem e colherem os benefícios da organização que poderia ter ou não ter fins lucrativos mas cujo objectivo final era a entre-ajuda e colaboração entre os membros, para o bem de cada um e de todos.

E foi por isso que se tornou um dos sócios fundadores da COOP (a cooperativa de construção de casas que todos ainda hoje  conhecem simplesmente  por COOP ).

O projecto para a COOP resultou num plano de construção de casas e de outras infra-estruturas para os seus sócios que previa um bairro moderno, funcional e com serviços básicos como posto de abastecimento para carros, cafés e quiosques, supermercado, torres para escritórios e apartamentos, parques de estacionamento, restaurante, etc. Voltado para a cultura, não deixou de fora uma galeria de arte onde se organizavam regularmente exposições de artistas como, por exemplo, Noel Langa, Malagatana e Chichorro.

A COOP abriu também uma boa livraria na baixa, na famosa (ou melhor, em Inglês, na “infamous”) Rua Araújo, quase em frente ao antigo cinema Varietá (que começou por ser casa de espectáculos e de ópera, antes de ser cinema) e perto do cinema 222. A livraria da Coop tornou-se num ponto de encontro onde se podiam passar horas a folhear livros de uma selecção que incluía títulos muitas vezes difíceis de encontrar nas outras livrarias da cidade.

Lembro-me que o Director da Coop nesses tempos era o nosso amigo Oliveira Nunes.

Meu pai “ganhou” uma casa num dos sorteios de casas construídas para sorteio entre os sócios da COOP. Não me lembro em que ano foi mas penso que foi em princípios dos anos 60. Sei que ninguém lá em casa esperava tal sorte, tão cedo, e que foi uma ocasião de grande alegria e celebração. A casa era no então número 14 da Rua Almeida Garrett, por detrás das torres (os “PH”) da COOP. Mais tarde, depois da independência, a numeração das casas foi alterada por isso hoje a casa já não deve ser a do nr.14.  Não sabemos, porque já não temos nem a posse nem a propriedade da casa.

Depois da Independência o Estado decidiu criar uma administração específica para a COOP e resultou que, na prática, muitos sócios (residentes ou não em Moçambique, com ou sem a nacionalidade Moçambicana) tenham perdido as suas casas numa espécie de nacionalização cuja legalidade é questionável.

Aliás, talvez em parte devido a essa duvidosa “nacionalização” é hoje quase impossível encontrar na Internet informação sobre a COOP: não consegui encontrar os estatutos da fundação da cooperativa, nem o seu registo notarial, nem lista de nomes de sócios fundadores, nem cópias de decisões de assembleias, nem projectos de urbanização e arquitectura, nem informação sobre os sorteios de casas entre os sócios, nem sobre o processo através do qual os novos sócios adquiriram as casas dos antigos sócios, etc.

Se, por acaso, algum leitor deste Blog puder acrescentar informação ou documentação sobre a COOP desde a sua fundação até aos dias de  hoje, fico agradecida.

Do livro de finalistas do curso de Direito 1937-1938 da Universidade Clássica de Lisboa, texto/versos do seu grande amigo e colega de curso Germano S. Neves:

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caricatura: inverno de 1937

Ele é louro, tem olhos azues

Tem um ar angelical

Mas sabe mais de andarilho 

Que de Direito Penal.

Com certa família 

Veja o que arranja

Talvez que o Homem

Lhe sirva de canja.

Veja o que sucede 

Com as “sucessões” 

Não vão suceder 

Desilusões.

Que ar de pachorra

Que calma saxónica

Houve um azar?

Abençoado!

Estava determinado!

Vai passear?

Partiu o comboio,

Deu-lhe um ar,

A desandar,

A apitar.

que fez ele agora?

Fica danado?

Não fica danado,

Era do programa:

Estava determinado!”

Educação Fundamental

(Texto publicado no jornal Itinerário de 01.09.1948)

Na conferência da UNESCO, que teve lugar o ano passado na Cidade do México, estudaram-se os meios de  tornar eficaz em todo o mundo, especialmente nos povos atrasados, o combate ao analfabetismo. Por combate ao analfabetismo não se entende, como até há pouco tempo, a simples instrução de ler e escrever, mas sim uma instrução em conjunto de varias matérias, a que se chamou Educação Fundamental.

Os objectivos, definição e meios de efectivação da Educação Fundamental vêm publicados no relatório com esse título (Fundamental Education) apresentado por um comité especial da Unesco, de que vamos resumir algumas ideias.

O relatório é prefaciado por Julien Huxley, Director-Geral da Unesco, do qual  temos falado aos leitores em outros artigos. Diz Julien Huxley que, tal como Abraham Lincoln, julgava que uma nação não pode permanecer metade escrava e metade livre; o mesmo é verdadeiro a respeito do mundo. Se a metade dos povos do mundo é negada a liberdade elementar que consiste em saber ler e escrever, falta alguma coisa nos princípios básicos em que se empenham as Nações Unidas. A Educação Fundamental, diz Julien Huxley, é apenas parte da compreensão humana mais completa e mais profunda a que se dedica a Unesco, mas é uma parte essencial.

A Educação Fundamental não abrange apenas o ensino a toda a gente de ler, escrever e contar. Inclui também a preparação para melhores condições de vida, o estudo e aplicação de métodos elementares da planificação comunal, aprendizagem e esclarecimento das populações no campo da higiene, encorajamento e desenvolvimento das aptidões naturais dos povos para artes e ofícios.

O representante da África do Sul na conferência da Unesco foi o Senador Brookes, que disse quando regressou: “A guerra à ignorância vai começar, especialmente em países como a China, a India ou África. Entrando em conta com estas populações, metade, pelo menos, da população do mundo é analfabeta“.

Para o Senador Brookes, a campanha da Unesco para levar a Educação Fundamental aos povos atrasados é o maior movimento mundial no sentido da desenalfabetização das massas ignorantes.

Diz o relatório citado que a Educação Fundamental tem um sentido real e não puramente formal. O seu fim é melhorar a vida da nação influenciando o meio natural e social. Sob este ponto de vista, a Educação Fundamental será uma força, trabalhando para a evolução social e mesmo para transformações radicais.

O relatório diz que a ignorância é uma ameaça para a saúde e felicidade do povo que dela sofre, e afecta mesmo a prosperidade do mundo considerado como um todo, se persistirmos em querer ver um só mundo (one world).

Como pressuposto da Educação Fundamental deve prever-se um mínimo nível de vida, isto é, de alimentação, saúde, instrução e facilidades de recreio, abaixo do qual nenhum povo do mundo deve viver.

Não se deve chamar ainda abundância a esse nível de vida mínimo, mas a nenhum povo ou grupo deve ser permitido passar fome ou perecer de doenças que se podem prevenir.

A Educação Fundamental tem como objectivo instruir, não só as crianças mas também os adultos. Segundo o Senador Brookes, caso se deixem permanecer na ignorância as actuais gerações adultas, teremos de adiar por uma geração os efeitos da Educação Fundamental.

O relatório da Unesco refere-se aos planos de desenvolvimento económico das regiões atrasadas, dizendo que a Unesco está interessada neles na parte em que se relacionam com os planos para a Educação Fundamental, ou em que mesmo a tornam possível. Salienta o relatório que nenhum dos termos – desenvolvimento económico e educação fundamental – pode esperar pelo outro. Seria muito simples dizer: “Eduquem-se os povos e depois desenvolvam-se as terras“; ou, ao contrário: “Desenvolvam-se os recursos do país e depois com eles pagaremos a educação do seu povo“. Mas ambas estas posições doutrinárias são insustentáveis no mundo de hoje.

Com efeito, a Unesco parte do princípio que a Educação Fundamental, tem que ser acompanhada de um nível de vida mínimo e correspondente desenvolvimento económico, mas o desenvolvimento económico, industrial e agrícola, não pode dar rendimento se não quando os obreiros, do mais simples ao mais qualificado, tenham um mínimo de habilitações literárias e técnicas.

Já neste jornal e noutros chamámos a atenção para a personalidade do Dr. Julien Huxley, Presidente da Unesco, e dissemos como foi dos primeiros colonialistas a ver e a expôr claramente a interdependência de três factores principais no desenvolvimento dos povos atrasados: instrução-saúde-nível de vida, este último ligado à industrialização e produção agrícola, que portanto devem ter desenvolvimento concomitante com a saúde e a instrução.

É-nos grato afirmar que também nesta Colónia tem havido pessoas com responsabilidades que sabem ver assim os problemas ligados ao da instrução e a importância desta como base de qualquer plano sanitário ou económico.

É o caso do Dr. Aires Pinto Ribeiro no “Programa da Acção Sanitária e Profilática”, publicado pela Direcção de Serviços de Saúde. Nele se fala na instrução e se preconizam os livros onde se devem ensinar coisas úteis, prevendo-se ao mesmo tempo o desenvolvimento económico suficiente para, andando os nativos vestidos, calçados e bem alimentados, poderem mais fácilmente evitar a doença.

Isto demonstra que vão tendo fim as ideias do século XVIII sobre a felicidade do selvagem livre vivendo no meio da natureza ou a crença na felicidade dos outros proveniente da bem aventurada ignorância.

José Santa Rita